Ética e política: uma relação antiga com discussões recentes

Ética e política sempre estiveram intimamente ligadas, não é de hoje que se faz presente na sociedade a discussão sobre a ética da política. Será diferente? A política tem uma ética própria? Na época dos antigos gregos ao analisarmos o pensamento socrático, platônico e aristotélico vemos a presença de uma ética política voltada para a polis. O político deveria estar voltado para a comunidade, seu principal objetivo deveria ser a busca pelo bem-comum. Para Aristóteles só existe política com ética, quando elas se separam há uma quebra dos valores que regem a vida na cidade e irá reinar uma comunidade onde o que se verá é a troca de favores em nome de benefício individuais. A filosofia política grega é extremamente rica e valorizava a cidade, já na Idade Média a ética política estava ligada a questão religiosa, na qual Deus era quem guiava os políticos e por isso eles deveriam possuir as virtudes cristãs.

Analisar como a ética e a política eram tratadas na Grécia Antiga e no medievo é tarefa deveras complicada e extensa, o fato é que a contribuição dos pensadores desses períodos é inegável e muitas ideias deles são tão atuais quanto eram em suas épocas, mas foi já na Idade Moderna que a Ciência Política começou dar seus primeiros passos como uma ciência propriamente dita e o grande nome desse desenvolvimento foi o italiano Nicolau Maquiavel. O pensador florentino rompeu com tudo que havia sido escrito, principalmente com o pensamento medieval que dizia que um bom político deveria ser bom e virtuoso, ele afirmava que um bom político deveria parecer bom e ter as virtudes que seus súditos admiravam, não necessariamente tê-las. Para ele, há vícios que são virtudes na política.


Aristóteles disse que o homem é um animal político, que precisa se organizar politicamente em sociedade para que possa viver bem, já Maquiavel vai dizer que “os homens são ingratos, volúveis, mentirosos, traiçoeiros, covardes, ávidos por dinheiro”. Seu pensamento foi considerado maldito tanto por essa forma de ver o homem, já que no medievo o homem era tratado como imagem e semelhança de Deus, como pela separação drástica que ele fez entre ética política e ética religiosa. Foi Maquiavel um dos autores mais mal interpretados, seu pensamento foi distorcido e ficou conhecido como alguém sem escrúpulos, a frase mais atribuída a ele, “os fins justificam os meios”, nunca foi proferida por Maquiavel.
Feito esse brevíssimo histórico com alguns poucos pensamentos sobre ética e política devemos fazer agora uma análise. O fato é que o que foi dito por Maquiavel no seu mais famoso livro, “O Príncipe”, são verdades. Não é preciso lê-lo para ver as lições que ele deu postas em prática pelos políticos contemporâneos, porém é preciso ver que as lições dadas aos príncipes tinham como objetivo manter unido o Estado e manter o governante forte no poder, assim poderia ser feito o bem coletivo que ainda é o fim de qualquer Estado, contudo ele não disse que a corrupção generalizada acompanhava o governante. Ninguém deve manter-se no poder a partir do momento em que apenas causa mal ao povo, este tem o direito de viver bem. Muito se discute em relação a falta de ética dos representantes do povo, todavia o próprio povo não tem valores éticos que sirvam como exemplo, uma verdade é que cada povo tem o governo que merece.
O campo político parecer ter leis próprias em que cada governante governa em seu favor, só que não são apenas os políticos que são conhecedores dessas “leis”, ora, o que Maquiavel escreveu em seu livro é visto nos diversos campos das relações sociais. O povo deve aprender essa “ética própria” e fazer com que ela sirva para o bem de todos, é a única forma de conseguir ao menos diminuir os problemas que assolam esse mundo belo e contraditório que é a política, afinal, como disse Rousseau, “Maquiavel, fingindo dar lições aos Príncipes, deu grandes lições ao povo”.
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