
O governo Dilma Rousseff emperrou. Por mais que a presidente tente imprimir na sua gestão uma velocidade aceitável, neste um ano e cinco meses em que ocupa o Palácio do Planalto conseguiu muito pouco. Encontrou à sua frente um sistema republicano eivado de defeitos e vícios, boa parte deles herdados do governo Lula. Agora, na moldura do escândalo Cachoeira, cuja CPI começou, de fato, seu trabalho ontem, o governo detectou que a Delta, um dos veículos utilizados pelo contraventor para promover corrupção no Centro-Oeste, enfeixa elevado percentual de obras do PAC , que já estão muito atrasadas. De “Ação de Crescimento” o programa nada tem. Com a CPI, a Delta vai balançar. Perderá os contratos que a sustentam. A empresa poderá quebrar e, aí, a gestão corre o risco de entrar em parafuso.
Enquanto isso, aqui na Bahia, o governador Jaques Wagner enfrenta barreiras que, por não serem a tempo removidas, também engessam sua gestão. A principal obra, a Fiol – Ferrovia Oeste-Leste- que se complementa (em projeto) no futuro porto de Ilhéus, parou de vez. Se, com 18 meses de obra, a ferrovia só andou 5%, no mesmo ritmo em 2014 somente 15% estariam, ou estarão, concluídos. Diante do impasse, o secretário de Indústria e Comércio, James Correia, propôs o que o governador não aceitará: reivindicar a presidência da estatal Valec, encarregada da construção da ferrovia.
Ora, a Bahia não tem, sequer, um ministro indicado pelo governo. Todos caíram. Wagner, quando ocorreram as quedas, preferiu não reivindicar vagas no ministério por entender que as nomeações são feitas pela presidente. A Bahia ficou sem nada. O Rio Grande do Sul, de Dilma, esbanja ministros: tem oito. Se Wagner não pressiona por ministérios, como iria partir para derrubar o presidente da Valec e assumir a estatal? É certo que há um baiano na equipe de Dilma, por sinal de grande competência, Jorge Hage. Ele foi para lá levado por Waldir Pires, quando esteve à frente da CGU. Há outro, Sérgio Passos, interino dos Transportes, mas há 30 anos (daí para mais) mora em Brasília. Talvez já tenha até esquecido onde fica a Igreja do Bonfim.
O governo baiano do PT, aliás, enfrenta uma situação difícil. Na análise aqui publicada domingo último, acentuei a onda de greves que dificulta a gestão. Utilizei uma expressão que surgiu na Guerra do Golfo, envolvendo tropas americanas atingidas pelo “fogo amigo”, ou seja, por suas próprias tropas. A expressão se tornou lugar comum. Passou a ser usada também para aliados políticos nas alianças feitas com partidos. Utilizei-a para clarear as dificuldades envolvendo as greves, a última –atual- das quais a dos professores, numa sequência perturbadora. Destaque para o motim da Polícia Militar. A greve é e sempre será no sistema democrático um instrumento de luta para os trabalhadores. Referia-me ao fogo “da rua para dentro de casa”, ao lembrar que o Sindicato dos Professores é controlado pelo PCdoB, aliado histórico do PT. Nada contra. É dever de o sindicato lutar por melhores condições e salário. Os professores merecem.
O desgaste se acentua para o governo Wagner, que está com pouca mobilidade. Vê-se, agora, um incêndio dentro do próprio PT com o discurso da vereadora de Ilhéus, Carmelita Ângela, que no domingo último ganhou as previas do partido à prefeitura ilheense, batendo dois concorrentes. Passou à condição de virtual candidata petista. Carmelita defendeu os professores em greve e disparou ao dizer que “O governo do Estado não quer reconhecer a luta dos trabalhadores. O governo do Estado tem mudado o seu discurso. O governo do Estado tem nos feito passar vergonha, porque nós votamos nele. Principalmente nós que somos do Partido dos Trabalhadores”. Falou em “mudança de discurso e acertou Wagner ao acentuar: "No momento em que se fala tanto nos discursos sobre valorização profissional, o governador Jaques Wagner teima em não reconhecer a luta dos trabalhadores e teima em jogar a sua história na lata do lixo.”
Se a Bahia anda de lado e o governo está dentro de um círculo de fogo, em Brasília o incêndio é total porque, como sempre acontece, a CPI mista ganha corpo. Se, antes, dava-se como certo que dois governadores seriam guilhotinados, o tucano Marcone Perillo, de Goiás, e Agnelo Queiroz, do PT do DF, agora entrou na dança (literalmente) Sérgio Cabral, do PMDB do Rio de Janeiro. Seu partido quer evitar que seja inquirido pela CPI, mas sua situação é difícil diante do implacável arquivo de filmes e fotos do seu adversário político Anthony Garotinho. A dança foi boa na noite parisiense em companhia de secretários do seu governo, do então presidente da Delta, Fernando Cavendish, com suas mulheres.
De resto, Dilma continuou renovando. Transformou o ex- todo poderoso Carlos Lupi, do PDT, em pato manco. Depois de cinco meses da queda de Lupi, devolveu a legenda ao seu Rio Grande colocando Brizola Neto no esquecido (e hoje fraco) Ministério do Trabalho. Para apenas lembrar, esse ministério já foi fortíssimo na era Vargas. Jango, quando vice-presidente, tomava conta do roçado.


