Coluna A Tarde: Os caminhos de Neto

A primeira expectativa para o futuro de Salvador obviamente foi ditada pelas eleições e pela disputa, complicada pelas pesquisas, entre os candidatos ACM Neto e Nelson Pelegrino. A vitória do democratas introduziu outra: como administrará Salvador e o que imprimirá para estabelecer uma mudança que reúna esperanças. Neto ampliou tal esperança depois de vencer, e a multiplicar diante de novos compromissos. Quer começar seu mandato em processo acelerado. É difícil. Normalmente, as novas gestões têm direito a um benefício de 100 dias iniciais, tempo concedido para que conheçam os meandros administrativos da máquina do poder. A partir daí, o gestor deve estar preparado para críticas, nunca elogios, porque as críticas são normais, consequência das promessas de campanha. O não fazer determina, com justa razão, as críticas. Melhor evitá-las para continuar cercado da esperança que o acompanhou nos votos recebidos no segundo turno. Não é fácil porque, queira ou não, vai encontrar uma capital problemática, carente em todos os sentidos. Não se trata exclusivamente de condenar João Henrique, mas reconhecer que errou muito, embora Salvador seja uma cidade complicada, desprovida de urbanização e de outros valores que permitam tachá-la de civilizada. Enfim, o trabalho à sua frente será imenso e cansativo. Sabe, no entanto, o novo prefeito que, com sua pouca idade, o trabalho que realizar na Capital terá forte influência na sua carreira política envolvendo os horizontes que tem como meta. Neto está, então, na obrigação – a mais fácil – de cumprir acordos feitos com a população de reordenar a prefeitura, estabelecendo uma gestão marcada pela meritocracia dos integrantes que nomear para as secretarias, evitando o fatiamento entre políticos. Não terá dificuldades porque o número de legendas que o apoiou na campanha foi pequeno, e não parece que esteja a caça de espaço público. O prefeito eleito constituiu, por seu lado, um grupo de transição de peso. Basta a presença do ex-governador Paulo Souto coordenando-a para dar o tom do que será feito, já que Souto sempre foi mais administrador do que político, embora entenda, e bem, da segunda arte. Não é de perder tempo. Trilhando o caminho que primeiro organizou – o grupo de transição – oferece um exemplo do que espera, embora saiba que vai encontrar uma cidade endividada de tal modo que será difícil conseguir créditos. Nada que seja insuperável. Normalmente, os primeiros impactos de gestões dão o toque do que pretende para Salvador, carente de estudos urbanísticos, de uma orla ordenada em lugar do lixo que hoje ela reflete, e prepará-la para receber de volta o fluxo turístico que a cidade perdeu, pouco a pouco, por não apresentar, como antes acontecia, uma multiplicidade de atrações que encantava os que aqui chegavam. Hoje, quem aparece por essas bandas retorna decepcionado, com péssima impressão da cidade, tanto nos espaços da orla como no centro histórico, uma das maiores, senão a maior, concentração colonial da América Latina. Desordenada, intransitável em sentido lato, violenta, com seus passeios e ruas arrebentadas, ocupadas por ambulantes, com as fachadas dos prédios da Av. Sete com tapumes que anunciam e estampam os nomes das lojas, escondendo a beleza dos prédios do início do século passado, com estacionamentos públicos desorganizados e em faixa dupla, enfim, Salvador transmite a exata dimensão do abandono a que foi submetida. Não serão necessários o benefício dos 100 primeiros dias de gestão. Os auxiliares que anunciar já avalizarão o que ele pretende. Enfim, o início de uma nova administração, sobretudo marcada por uma disputa eleitoral que galvanizou os interesses dos eleitores e da população de maneira geral, é sempre um momento em que muito se espera. Porque ditar a esperança e projetar o que o administrador pretende fazer no exercício do Executivo.
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